As Influências do Surrealismo
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Nave, bum! - Augusto Moraes

Nave, bum! Eis já no título uma narrativa completa: de coesão elíptica, de textualidade e clímax; uma reflexão precisa e necessária. O reflexo do piloto não foi preciso. Com certeza, de algum lugar, a nave decolou, voou para outro e bum! Parece-nos perfeitamente normal que a nave decolou, pois naves decolam e não mantêm-se estacionadas pelo céu. A menos que não fosseuma nave comum, seria uma nave especial do exército metafísico dos U.S.A. (neemusa). Logo, quando surgiram os boatos das neemusas, passava um avião por mais próximo e “aaaaaaaaaa”, corriam às suas casas. Ainda que estacionem pelo céu! Um dia sabemos que decolaram. Se assim sabemos, sabemos também que decolaram do U.S.A. muito na encolha, dissimulando ou mesmo na vista de poucos ou muitos. Certo é, que a nave decolou para chegar ao céu e lá estando, estacionada ou em movimento, com velocidade acima ou abaixo do permitido nas vias aéreas, vai ter com o piloto seu trágico destino em minutos. Se tivéssemos visto os destroços… Deixemos e creiamos que seja uma nave simples, como aquelas que transportam malas com turistas velhos e solitários.
A nave decolou e sabemos, desde já, que virá em breve o momento do bum! A notícia não chegou depressa aos jornais, mas se assim tivesse acontecido, não seria preciso que investigássemos a verdade e logo seria desinteressante esta jornada. Antes que a nave decolasse o piloto fez todos os procedimentos que aprendera na aeronáutica do norte, lembrara como hoje um amor reprimido com uma enfermeira de cabelos ruivos, logo depois checou tudo por três vezes. Calma, ainda não, nada estava errado: o ronco normal, aceleração à alcance, quinhentos metros de pista para voo, velocidade acertada, PP e PC conferidos e ajustados, enfim, subiu lindo e perfeitamente. Todo o voo poderia ser perfeito, não fosse pelo reflexo. Não o pudemos ver decolar nem o vimos no céu. Se a notícia tivesse chegado ao jornal, buscariam a verdade como nós, e suporiam a maior parte analisando os destroços. Nós, mesmo sem formação específica, se analisássemos os destroços poderíamos chegar a milhares de suposições, porém interessa-nos somente a verdade verdadeira, não para culpar a um ou a outro e sim para que possamos aproveitar bem o trajeto.
Antes que o bum! fosse ouvido por todos, posto que pudesse ser ouvido por todos tanto pela sua categoria dentro das figuras de linguagem: onomatopeia, o que facilita ao extremo o entendimento de um significado ou sentido; quanto pelo ponto de exclamação preso na palavra que dá um tom específico para o acontecimento, houve dois reflexos e um que não. Então pensemos, a nave após todas as checagens decolou. O piloto poderia ter dormido pouco durante a noite devido uma insônia repentina ou um suadouro do colchão e o voo poderia ter sido pela manhã. Se assim o fosse, ao acaso pegaria no sono e despencaria com a nave. O voo, contudo, foi pela tarde e o piloto estava bem descansado, tanto que teve tempo para dormir por mais tempo ao lado de sua amante de cabelos ruivos. Não foi preciso que o reflexo do sol varando pelas janelas cinzentas do quarto o acordasse, bastou o cheiro do café fresco. Comungou de uma xícara com sua bela, fizeram amor debaixo do chuveiro e almoçaram uma macarronada de sete molhos com queijo branco preparada com os mais excêntricos carinhos e mimos. Só então que saiu. Sua extrema calma poderia ter-lhe causado uma torção nos joelhos assim que cruzava a primeira esquina para o outro lado da rua e pisava apoiando o pé manco no elevado da calçada. Ou pior, poderia não ter-lhe caído bem o almoço devido a mistura dos molhos. Entretanto não torceu o joelho, não atravessou a rua e nunca teve um pé manco, também não teve congestão estomacal posto que nunca misturara os molhos. Seguia firme e determinado pela tarde até a nave. Sabemos que foi à tarde, porque o sol luzia por traz das Colinas do Oeste, contrário a praia onde brotara.
Foi do sol, assim como o primeiro, que veio o segundo reflexo. O primeiro como já disse veio tentando acordá-lo através do vidro da janela; o segundo, porém, não pôde atravessar o vidro da nave, pelo contrário, bateu e voltou. O verdadeiro reflexo não foi exatamente do sol, mas provocado por ele. Era o reflexo do próprio piloto, turvado no espelho que fizera-se. Nada era figura: um traço não era preciso, acaso uma sombra ou um gesto tocando o rosto se espelhava de forma precisa. Sabia da essência, contudo lá era outro refletido, desesperado tentando livrar-se do destino. O sol saía-se pelas turbinas permitindo de novo, pelo vidro, a visão a frente. O piloto, ensimesmando-se, refletia no visto. Não precisava mais do seu reflexo para perceber-se em nova essência: nada mais seria preciso. Com mais racionalidade chegaríamos a conclusão de que as naves não costumam ter vidros desse tipo, a não ser é claro que fosse uma nave especial do exército metafísico dos U.S.A. (neemusa). Se, de certo que seja, uma neemusa, toda a verdade constatada até então seria anulada por sua contradição, pois estaria já estacionada no céu e para isso teria que decolar muito antes, talvez até pela manhã. O piloto, pela manhã, se não tivesse preparado para o voo, poderia passar por problemas seríssimos pela tarde: fome; sede; tontura; enjoo; dores no corpo; sem contar com o aperto nas necessidades básicas de secreção, o que poderia implicar em um constrangimento generalizado pelos colegas, caso viesse pousar em algum destino onde o conhecessem. Todavia não sabemos ao certo das instalações internas da nave e assim julgamos que o piloto pudesse satisfazer suas necessidades e estivesse em ótimas condições físicas e psicológicas para o voo, logo que se não as tivesse boas colocaria obviamente a nave em piloto automático e dessa maneira o segundo reflexo não impediria o terceiro. 
Então sabemos já que a nave decolara pela manhã do U.S.A. e estacionara no céu até o momento em que encaminhava-se em direção a Colina do Oeste por onde já escondia-se o sol do fim da tarde, anunciando a tarde do fim. O sol turvou a vista e viu-se no segundo reflexo e quando não mais se pôde ver-se, pouco viu. O terceiro reflexo não aconteceu, não teve tempo para dar-se. A sombra da Colina do Oeste cobrira já toda a nave. O sol apesar de não culpado por inteiro desculpava-se. Bum! Deu-se o clímax antes que suas mãos alcançassem o manche. O reflexo do piloto não foi preciso. Se víssemos os destroços poderíamos supor que após a queda as turbinas permaneceram girando em rotação menor e o piloto ainda vivo e sem alguns membros saíra cambaleando em busca de socorro por entre as árvores da serra. Os jornalistas já encaminharam-se ao local para noticiar o acontecido à todos e por esses tempos já devem ter analisado os destroços. A editora já arquiteta a manchete e a gráfica já imprime quente o papel da notícia. Chega a minha porta o carteiro e não toca a campainha. Deixa por cima do muro o jornal e lá está: Nave, bum! “Uma nave simples, como aquelas que transportam malas com turistas velhos e solitários, foi encontrada aos destroços hoje pela tarde. Por sorte era apenas um teste de voo e não havia piloto ou qualquer passageiro. Os que ouviram o bum! dizem que havia sim um piloto e que não era uma nave qualquer sendo sim uma neemusa que decolara por cedo e estacionara no céu, o governo nega e diz que não existem naves que estacionam no céu, que a neemusa foi uma invenção popular para negar a lei da gravidade”. Se acaso víssemos os destroços…

Augusto Moraes

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"Poemas selecionados de Augusto Moraes"

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Sou dentro e fora e a morte é um descuido – Augusto Moraes

 

Sou dentro, fora e a morte é um descuido

     Pernoita em mim um lapso de vinte e quatro

                                Pertenço a um descaso da vida

                                       De corpo implume e alma penada

Negligência é permitir esquecer-se

                                          Sou múmia só por hoje e tenho nojo dos sete

                O cão santo com seu manto sagrado de purpurina extrai das línguas o ópio do enredo

                Os sonhos são feitos da mesma matéria que absorvo

Enquanto isso

                                               Os realistas estabelecem níveis incríveis de coelhinhos mortos com as cabeças presas nos nove

Pobre do homem que roubou o homem de dentro do homem

Pobre do homem que não roubou ninguém

Meu vazio se preenche com o mesmo nada que preenche o dos oitenta

Eu acredito na vida

                deus não acredita em mim

 

Augusto Moraes

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Tripalium – Augusto Moraes

Nas mãos a ferrugem, tempestivas rompem as fendas lunáticas

                As lunetas se espalham

                               Espelham no circo feito, as mocinhas sorrindo

Estrumam nos ventos da cidade

As sirenes

As buzinas

Tenho sorte em ter o que não quero

                O cheiro é quase agradável, mas as cores

Infelizmente as cores não são verdadeiras nem reais

                               Em Bogotá o sol é o mesmo e só a fumaça é maior

As trombas vigiam as mãos com as gotas livres

                O sangue não sabe da alma

                Cospe nas estatuetas dos portugueses

O devaneio estagna por quilômetros kubricos onde os porcos palaceiam na vida insones

Acolchoam-se

Aculturam-se

                Pelos vidros a elegância subtrai o real em um ciclo degenerado de torções

                               Torcem para que o céu despenque

Insultam-se

Agarram-se

Beijam-se

Assexuam-se

Fantástico mesmo são as aves que não voam

                Quantos são esses os Jesus Cristo, condenados do céu

                                                                                              Maligno

Pobreza é a cabeça cinza no lavatório

                                               Esse sou eu com as palhaçadas enfiadas no cú de deus

Quem pode dizer da alma ou da essência

Do pó ao pó

                                                               Melhor Diamba

                O mico saiu cascudo com o nariz todo inchado

Tropecei num suadeiro liso

O trabalho é ânsia de fogo na pele

                São três varas num sofrimento

                               Enfia com mais força, ainda não esta doendo

 

Augusto Moraes

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"A gota" - Augusto Moraes

Dum pensamento, saiu uma gota de suor, desceu pelo rosto, escorreu pelo braço, derramou-se pelo tronco, dobrou no calcanhar, correu o corredor luminoso, rolou as escadarias, cruzou o portão, atravessou a rua, atirou-se num para-brisa, rasgou o semáforo, despencou pelo retrovisor, invadiu o centro cultural, passou o café da Dona Carmen, grifou nos grafites das paredes, seguiu sentido ao palco, pisou os passos do balé, redigiu o projeto do Glauter, entrou na sala de literatura, entrelaçou as pernas do escritor, subiu o ombro e lançou-se, num pensamento.

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O poder do amor - Augusto Moraes

Bento não faria mais uso do tabaco e jurou. Quisera que essa decisão tivesse como base o amor e não o acontecido. Não que Bento não cresse nas transformações do amor, acontece que nessa ocasião não seria necessário o uso do seu poder místico, piteiras antitabagistas ou mesmo adesivos de nicotina.

Após o jantar quis agradar sua suposta visitante. Começou por varrer. O cinzento do chão parecia um cinzeiro e as pedrinhas se confundiam com as bitucas. Seria uma vergonha caso Estela o visitasse. Era sábado, por volta das sete horas. Escovou os poucos dentes. Arrumou a louça no armário e vestiu seu traje mais clássico, era curto mas um esforço deslocando o ombro sentido ao pescoço disfarçava.

A demora de Estela cheirava na noite. Bento notou que ela não viria mais ou que chegaria a qualquer momento. Tirou o blazer e os sapatos e deitou-se à cama. O silêncio noturno era tedioso e cedia acender um cigarro. As mãos trêmulas o levavam até os lábios amarelados. O palito, nas labaredas, parecia a vida das salamandras em direção ao tabaco, também ansioso em ser aceso. Um êxtase enchia o pulmão e aliviava.

Dormiu com o cigarro aceso entre os dedos e quando acordou tinha fumado até o cotovelo. O cheiro de fumaça tomou a casa, contudo não ocasionou um incêndio. Passaram-se semanas e, Bento não dormia para não causar incêndio, não saia de casa para que não rissem do bitucão, não banhava-se para que não se apagasse.

- Nem sinal de Estela. Não notava a campainha por vários dias, porém, com a intenção de diminuir a fumaça crescente dentro da casa, abriu a porta. Estela estava imóvel e congelada, com o dedo firme no interruptor. Foram horas para o total degelo e, ao fim ela quase riu, mas chorou. Logo ele tratou de explicar. Justificou que não era tão mal assim. Aquecia no frio, acendia o fogão, fazia função de lanterna na escuridão. Não demorou muito e Estela percebeu o quanto o acontecido trazia boas novas, principalmente quando Bento jurou que não faria mais o uso do tabaco. Agora, seu braço em brasa aliviava a tensão integralmente.

Ainda enquanto havia brasa, Bento dedicava-se a manusear os objetos destramente. Escrever, segurar os talheres, escovar os dentes, quebrar um ovo, bater palmas. Em um desses dias, uma faísca atingiu-lhe no olho causando um sono repentino. Dormiu de pé por quase duas semanas e no sábado, às sete horas, acordou. Viu-se com o braço apagado. Havia jurado que não faria mais uso do tabaco – O que Estela pensaria? A situação não lhe dava outra opção, a não ser que acendesse o outro braço.

Augusto Moraes

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