As Influências do Surrealismo
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"Poemas selecionados de Augusto Moraes"

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#poemas #augusto moraes

Sou dentro e fora e a morte é um descuido – Augusto Moraes

 

Sou dentro, fora e a morte é um descuido

     Pernoita em mim um lapso de vinte e quatro

                                Pertenço a um descaso da vida

                                       De corpo implume e alma penada

Negligência é permitir esquecer-se

                                          Sou múmia só por hoje e tenho nojo dos sete

                O cão santo com seu manto sagrado de purpurina extrai das línguas o ópio do enredo

                Os sonhos são feitos da mesma matéria que absorvo

Enquanto isso

                                               Os realistas estabelecem níveis incríveis de coelhinhos mortos com as cabeças presas nos nove

Pobre do homem que roubou o homem de dentro do homem

Pobre do homem que não roubou ninguém

Meu vazio se preenche com o mesmo nada que preenche o dos oitenta

Eu acredito na vida

                deus não acredita em mim

 

Augusto Moraes

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Tripalium – Augusto Moraes

Nas mãos a ferrugem, tempestivas rompem as fendas lunáticas

                As lunetas se espalham

                               Espelham no circo feito, as mocinhas sorrindo

Estrumam nos ventos da cidade

As sirenes

As buzinas

Tenho sorte em ter o que não quero

                O cheiro é quase agradável, mas as cores

Infelizmente as cores não são verdadeiras nem reais

                               Em Bogotá o sol é o mesmo e só a fumaça é maior

As trombas vigiam as mãos com as gotas livres

                O sangue não sabe da alma

                Cospe nas estatuetas dos portugueses

O devaneio estagna por quilômetros kubricos onde os porcos palaceiam na vida insones

Acolchoam-se

Aculturam-se

                Pelos vidros a elegância subtrai o real em um ciclo degenerado de torções

                               Torcem para que o céu despenque

Insultam-se

Agarram-se

Beijam-se

Assexuam-se

Fantástico mesmo são as aves que não voam

                Quantos são esses os Jesus Cristo, condenados do céu

                                                                                              Maligno

Pobreza é a cabeça cinza no lavatório

                                               Esse sou eu com as palhaçadas enfiadas no cú de deus

Quem pode dizer da alma ou da essência

Do pó ao pó

                                                               Melhor Diamba

                O mico saiu cascudo com o nariz todo inchado

Tropecei num suadeiro liso

O trabalho é ânsia de fogo na pele

                São três varas num sofrimento

                               Enfia com mais força, ainda não esta doendo

 

Augusto Moraes

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"A gota" - Augusto Moraes

Dum pensamento, saiu uma gota de suor, desceu pelo rosto, escorreu pelo braço, derramou-se pelo tronco, dobrou no calcanhar, correu o corredor luminoso, rolou as escadarias, cruzou o portão, atravessou a rua, atirou-se num para-brisa, rasgou o semáforo, despencou pelo retrovisor, invadiu o centro cultural, passou o café da Dona Carmen, grifou nos grafites das paredes, seguiu sentido ao palco, pisou os passos do balé, redigiu o projeto do Glauter, entrou na sala de literatura, entrelaçou as pernas do escritor, subiu o ombro e lançou-se, num pensamento.

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O poder do amor - Augusto Moraes

Bento não faria mais uso do tabaco e jurou. Quisera que essa decisão tivesse como base o amor e não o acontecido. Não que Bento não cresse nas transformações do amor, acontece que nessa ocasião não seria necessário o uso do seu poder místico, piteiras antitabagistas ou mesmo adesivos de nicotina.

Após o jantar quis agradar sua suposta visitante. Começou por varrer. O cinzento do chão parecia um cinzeiro e as pedrinhas se confundiam com as bitucas. Seria uma vergonha caso Estela o visitasse. Era sábado, por volta das sete horas. Escovou os poucos dentes. Arrumou a louça no armário e vestiu seu traje mais clássico, era curto mas um esforço deslocando o ombro sentido ao pescoço disfarçava.

A demora de Estela cheirava na noite. Bento notou que ela não viria mais ou que chegaria a qualquer momento. Tirou o blazer e os sapatos e deitou-se à cama. O silêncio noturno era tedioso e cedia acender um cigarro. As mãos trêmulas o levavam até os lábios amarelados. O palito, nas labaredas, parecia a vida das salamandras em direção ao tabaco, também ansioso em ser aceso. Um êxtase enchia o pulmão e aliviava.

Dormiu com o cigarro aceso entre os dedos e quando acordou tinha fumado até o cotovelo. O cheiro de fumaça tomou a casa, contudo não ocasionou um incêndio. Passaram-se semanas e, Bento não dormia para não causar incêndio, não saia de casa para que não rissem do bitucão, não banhava-se para que não se apagasse.

- Nem sinal de Estela. Não notava a campainha por vários dias, porém, com a intenção de diminuir a fumaça crescente dentro da casa, abriu a porta. Estela estava imóvel e congelada, com o dedo firme no interruptor. Foram horas para o total degelo e, ao fim ela quase riu, mas chorou. Logo ele tratou de explicar. Justificou que não era tão mal assim. Aquecia no frio, acendia o fogão, fazia função de lanterna na escuridão. Não demorou muito e Estela percebeu o quanto o acontecido trazia boas novas, principalmente quando Bento jurou que não faria mais o uso do tabaco. Agora, seu braço em brasa aliviava a tensão integralmente.

Ainda enquanto havia brasa, Bento dedicava-se a manusear os objetos destramente. Escrever, segurar os talheres, escovar os dentes, quebrar um ovo, bater palmas. Em um desses dias, uma faísca atingiu-lhe no olho causando um sono repentino. Dormiu de pé por quase duas semanas e no sábado, às sete horas, acordou. Viu-se com o braço apagado. Havia jurado que não faria mais uso do tabaco – O que Estela pensaria? A situação não lhe dava outra opção, a não ser que acendesse o outro braço.

Augusto Moraes

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"Seu Almir e as macieiras" - Augusto Moraes

Antes dos seus setenta anos, Seu Almir plantava maças. Hoje as macieiras já estão gigantescas. Das sombras dos mais extremos polos até os centros equatorianos, formavam caminhos e podíamos vê-los de longe. Eram enormes corredores de terra quando olhamos com os pés no chão e quando olhamos do alto víamos somente as folhas verdíssimas e brilhantes.

Seu Almir tinha família e eram as macieiras que davam o sustento dessa família. Não tinha concorrência, ninguém mais plantava maças, por esse motivo ele podia ficar bem à vontade com seus lucros fixos. Vendia por dois reais o quilo. Não sobravam maças devido ao alto consumo da cidade, porém sobrava tanto dinheiro que tinham sobremesa depois das três refeições, algumas vezes durante a noite ainda acordavam - todos ao mesmo tempo - para comer a um pedaço de bolo de chocolate ou um mousse de maracujá, neste momento era uma grande festa ao redor da mesa, uma comunhão alegre e familiar.

O tempo passava e a família de Seu Almir engordava tanto que alguns dos seus filhos tinham dificuldade para passar pelas portas, tiveram que engrossar todas as pernas das cadeiras e os estrados das camas. Os compradores começaram a perceber que devido a época de maçãs e a quantidade muito maior de colheita havia mais maçãs que a expectativa. Não sei ao certo se por inveja da obesidade da família de Seu Almir ou por uma ordem superior devido a esse alto numero de maçãs , durante a negociação, ofereceram um valor menor pelo quilo. Não haviam muitas escolhas, ou Seu Almir aceitava o quilo por um real ou teriam que comer apenas maças por toda a época.

Que diabos! Pensava Seu Almir. Como poderiam pagar menos se as macieiras davam maior número de fruto? Nem podia se dizer que era um prejuízo, era apenas um ganho menor, ganho menor que já fazia falta na sobremesa da madrugada. A família reclamava como se passassem fome. Alguns dos filhos queriam roubar a sobremesa dos vizinhos ou dos armazéns da cidade, outros ameaçavam o suicídio e Dona Nena chorava tanto que os ombros de Seu Almir, seu marido, não aguentava o peso das lágrimas . Os grilos na cuca de Seu Almir não se aquietavam e todos exigiam dele uma posição.

Ainda era época de maçã e logo os compradores voltariam, talvez até pudessem oferecer um valor menor que o último. Num lapso de raciocínio lógico, durante o sono dos reclamantes, Seu Almir fez seus minuciosos e obscuros planos.

- Se tenho mais e por isso ganho menos, preciso ter menos para ganhar mais!

Pela manhã, ainda antes de todos acordarem, tocou fogo em mais da metade das macieiras. As labaredas eram tão lindas e tão cheirosas que Seu Almir não conseguia despregar os olhos delas enquanto queimavam, ele sorria triunfante e extasiado por sua genialidade e somente depois que o fogo baixou é que voltou para dentro de casa e fingiu dormir até que todos acordassem. Os filhos logo quando viram a catástrofe acontecida correram para acordar ao pai que se fingiu desesperado e como nunca foi visto, também chorou. Apesar de ser observável que durante a noite não havia caído uma só gota de chuva, não conseguiram ir contra o pai que dizia que provavelmente foi culpa dos relâmpagos noturnos. Somente a Dona Nena gritava ter sido coisa de gente invejosa e lançava pragas para todos os lados da vizinhança.

Quando os compradores chegaram logo fizeram vista da queimada e antes mesmo que eles fizessem qualquer tipo de suposição, Seu Almir, foi dizendo sobre as tempestades noturnas, os relâmpagos, os trovões, os raios, o prejuízo e varias outras formas de se mostrar vítima. Acontece que ele conseguiu a compreensão dos compradores que tiveram que aceitar o quilo da maçã por nove reais, era isso ou a cidade ficaria sem maçãs! Foi assim que Seu Almir conseguiu continuar engordando sua família até que morressem todos ou surgissem novos Senhores Almir.

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